...um texto incrível escrito por nosso querido Celo.
Improviso (14/07/2008)
Segundo o Dicionário Michaelis Improvisar significa: Produzir no momento sem preparo prévio. O improviso ficou consagrado pelos músicos de Jazz que graças a originalidade com que realizavam suas performances, nunca repetindo o mesmo solo em uma música, mostraram ao mundo a força criativa do qual o homem é capaz. Independente de fazer parte do meio artístico ou não, no grande show da vida um bom improviso pode ser todo diferencial em nossa rotina.No mês passado precisei colocar em prática um pouco da minha arte de improvisar.
Carmo de Minas, aconchegante cidade do interior de Minas, estava tomada graças ao feriado de Corpus Christi. Contudo havia um grupo que estava ali com outros propósitos e eu fazia parte dessa turma. Após algumas horas de ônibus pela ssssssssinuosa estrada que liga o Rio de Janeiro a Carmo, cheguei com parte da minha família as ruas de paralelepípedo aonde circulam bucólicas charretes puxadas por cavalos que deixam um cheiro forte de fazenda pelas esquinas. Estávamos ali para o casamento de Liliane e Bruno, meu primo.
Meu tio Matheus muito festeiro decidiu organizar um jantar antes da cerimônia para reunir todos os familiares e amigos próximos que estavam presentes. Por coincidência, o mesmo hotel em que ele organizou este encontro foi uma das paradas fizera em sua lua de mel com tia Rosa. Ali o tempo parecia haver parado. No lobby do hotel havia um pequeno palco onde os hóspedes ficavam sentados em grandes cadeiras brancas de madeira assistindo a banda como se assistissem ao capítulo da novela. Acontece que dentro desse grupo se encontravam grandes aspirantes a Fred Astaire ou Carlinhos de Jesus. Dentro de um salão ao lado ficava nosso buffet e entre um pagodinho e um clássico do Roberto Carlos jantávamos e conversávamos. Não foi muita surpresa quando então meu Tio Matheus pegou o microfone para fazer seu agradecimento aos que ali estavam. A surpresa veio depois quando outros convidados emocionados foram até o microfone. Talvez o mais comovente fora o discurso do Brian “pai americano”, como chamamos, de Bruno, que veio com a mulher e o filho diretamente do Colorado. Ele nos revelou que nunca havia pensado em ter filhos, mas após o período em que tiveram em sua casa um filho brasileiro ele e a esposa decidiram constituir uma família. Nessas horas é que temos certeza que as ações valem mais do que qualquer palavra e com um abraço sincero e comovente ele encerrou seu discurso nos braços veja que coisa, não de Bruno, mas sim do meu tio.
Após alguns amigos e familiares falarem ficou a expectativa que algum dos “primos” fosse lá falar. Por fazer parte do grupo decidi assumir a missão. Nos casamentos americanos é tradição que o “best man” fale dos noivos. Mas, eu fui pego de surpresa e não tinha a menor idéia do que falar. Deixei apenas fluir a emoção que estava sentindo naquele momento, pois acabara de passar uns dias com minha afilhada que nascera. E outro bebê, estava sendo aguardado pela minha prima. E vi diante dos meus olhos a passagem de bastões. Geralmente nos revezamentos o correndo que vai receber o bastão dispara na frente e recebe do seu companheiro sem sequer olhar pra trás, pois cada segundo é valioso. Eu ainda vou continuar correndo e não penso em olhar pra trás tão cedo, mas acontece que para minha irmã, minha prima Juliana e agora para Brunão eles decidiram agarrar seus bastões.
Não podia ter sido mais verdadeiro, mas havia esquecido de um detalhe. Ali era o jantar de casamento de Lili e Bruno. E eu tive o prazer de compartilhar alguns momentos muito bacanas desse casal. Por isso, precisava vir aqui e deixar registrado o discurso que nunca foi pronunciado. Talvez ele não venha a ter o mesmo impacto, mas também não gostaria de deixar passar sem que os dois soubessem.
O discurso que não existiu:
“A primeira vez que ouvi Brunão falar em Lili, foi em uma das minhas visitas ao seu apê. Na verdade não lembro se tinha passado por lá para deixar alguma coisa ou se fora no dia em que decidimos pintar a parede da sala para dar um pouco mais de cor ao apê. Sei que estamos em pé na cozinha tomando uma cervejinha quando ele abriu seu coração. Estava completamente apaixonado, e conhecendo a determinação dele sabia que ele faria de tudo para conquistá-la. Porém, a história não era assim tão fácil, havia um ex na história que o deixava apreensivo de entregar todo seu coração sem ser retribuído. Mas nessas horas é o coração quem manda. E ele faria tudo para conquistá-la. Depois, já formando um casal Lili passou por um teste de fogo ao ir para Recife e participar de um encontro dos primos durante as festas de natal e reveillon. Fizeram ler poesia e tudo mais. De brincadeira filmei os dois ao perguntar quando seria o casório, eles riram e disfarçaram. Mas senti pelo jeitão de Bruno que essa data já estava definida em seus planos e sinceramente pelas imagens Lili também pensava no assunto seriamente.
O tempo foi passando e eu não estava mais morando em São Paulo, por isso nossa convivência diminuiu, mas a ligação que tenho com meus primos é muito forte. Conversando com Brunão ele me falou dos seus planos de férias. Um mês sem trabalho, só os dois, pelas cidades mais românticas do mundo entre França e Itália. Sabia que aquela viagem era um novo passo que eles estavam tomando e sabia que teríamos boas surpresas. Liguei pra ele do nada, para brincar.
- Diz logo Brunão que tu não me engana. Tu vai pedir a mão de Lili em casamento nessa viagem né?
Ele ficou sem graça, não respondeu nada e disse que depois me ligava. Eu fiquei na minha. Não é que 30 minutos depois ele me liga.
- Como é que tu sabia?
- Do que?
- Pedi a mão de Lili em casamento hoje. Saímos para jantar e comemorar nosso primeiro aniversário de namoro e pedi no jantar. Só não te falei naquela hora que me ligasse, pois ainda não havia falado para meus pais.
- Eu te conheço Brunão, sabia que essa viagem seria uma lua-de-mel antecipada. Tô muito feliz com a notícia!
Eu conheço bem o primo que tenho e até comentei com minha avó que em algum momento da adolescência ele deve ter escrito todos os seus objetivos na vida em algum lugar, pois não conheço ninguém mais seguro e determinado nos caminhos e nas decisões que toma. Apesar de todo planejamento eu sinceramente duvido que nem nos seus sonhos mais inspirados imaginasse que encontraria alguém que o completasse como Lili.
Para mim é uma honra ter sido convidado como padrinho e esse convite não irá se resumir em entrar na igreja, sair nas fotos, sem falar na gravata que ganhei. Quero que os dois saibam e, principalmente Lili, que sempre que quiser falar qualquer coisa, pois às vezes viver junto não é fácil, contem comigo. Como eu disse conheço bem Brunão e espero daqui para frente conhecê-la tão bem quanto conheço a ele.
Para terminar só tenho a dizer: AOS NOIVOS!!”
Esse discurso, porém, não existiu. O momento passou e não posso me arrepender por não ter reunido as palavras acima naquela noite de tanta emoção. Acontece que tem momentos que simplesmente precisamos improvisar.
Por isso, meu maior voto aos noivos é que improvisem bastante. Nas brigas, improvisem, nas dificuldades, improvisem. Improvisem um jantar romântico, uma viagem de fim de semana. Improvisem uma fuga da rotina. Pois, enquanto mantiverem a mente aberta e o coração puro tenho certeza que juntos realizaram improvisos cheios de harmonia e melodias que construíram uma história de vida.
Marcelo Maia
Padrinho