Quando recebi o convite para almoçar com aquela família, gaguejar foi minha reação única. Não os conhecia bem e ainda mantinha o maldito temor de julgamento, que me persegue há três encarnações seguidas. Meu amigo Ludovicko Jefferson da Silva, com seus bordões surrados e rimados, disse: “vai lá. O que dá pra rir dá pra chorar. Qualquer resultado que houver, você o transforma em prosa de mulher”. Fui, pois desobedecer ao Ludo significa aturar o falatório dele por horas, dias e noites.
Lá chegando, a primeira visão que tive foi da sala de refeições, formada por sofás confortáveis, mesa homérica para 12 pessoas e uma menor, de “apoio”, para outras seis. Quando dei por mim, estava no reino mágico da prosopopéia, no meio de umas 15 pessoas que conversavam em pares - no máximo. em trios - falando alto, com gestos largos e assuntos diversos. Eles papeiam sempre 50 decibéis a mais do que qualquer um e carecem de pelo menos de um metro de diâmetro para gesticular. Os grupos mudavam a todo instante, de acordo com um novo assunto lançado. A sala mais parecia redação de jornal, com todos falando em muito alto e bom som. Deus me livre de pedir o sal!
Eles são daquelas pessoas que têm um plus-adicional a mais. Não conseguem verbalizar nada sem figuras de linguagem. Eufemismos, metáforas e onomatopéia permeiam aquelas conversas. São exagerados, pleonasticamente hiperbólicos, redundantemente enfáticos, daquele tipo “muito-que-só-a-gota” e “de-com-força” Tudo lá ocorre no superlativo. O almoço é “saborosíssimo”, “gostosíssimo”, a sobremesa não é doce, é “dulcíssima” e o cafezinho final é sempre “quentíssimo”. A fome, claro, é sempre é monstro!
Aliás, mesmo com conversa boa, a comida é a atração principal de lá, pelo que vi. E nunca dá para atender aos gostos de todos, pois sempre há comentários de que um teve bolinhos a menos. E pense num povo opinioso. Todo mundo confere atributos (bons e ruins) aos pratos. “Meu bacalhau é melhor”, “o creme de morango tem que ser com leite condensado”, “o abacaxi está com gosto de manga”. E eu nem consegui elogiar os pratos.
Naquela profusão de amenidades, eles seguem falando de museus, problemas de saúde, shows, novidades da farmácia, restaurantes, viagens, o primo que está nas últimas, a parente que morreu, a dieta que funciona, a gravidez de uma, o casamento da outra e por aí vai. Não é que o jardim de lá seja mais verde, mas a alegria deles me pareceu maior que a do resto da humanidade. E as dores também. Tenho certeza de que aquela raça tem mais lágrimas e tem mais risos. Eles são uns loucos. Uns pelos outros.
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